O DNA antigo de múmias chilenas é a primeira evidência molecular de que os colonizadores europeus trouxeram a varíola para as Américas, dizimando as populações indígenas.
Com informações de Live Science.

Duas múmias chilenas forneceram aos cientistas os genomas de varíola mais antigos conhecidos nas Américas, datando entre 1492 e 1631.
Os genomas são a primeira evidência de DNA que comprova que a colonização europeia introduziu a varíola nas Américas, de acordo com um artigo publicado na quinta-feira (30 de julho) na revista Science.
A varíola, infecção causada pelo vírus da varíola (Orthopoxvirus sp), foi uma das doenças mais mortais do mundo até ser completamente erradicada em 1980. Embora a doença tenha sido encontrada em múmias egípcias de 3.000 anos, o primeiro surto documentado nas Américas ocorreu em 1518, durante a conquista espanhola do Caribe. O vírus então se espalhou rapidamente por toda a América Central e do Sul.
Especialistas estimam que a doença causou a morte de três a quatro milhões de indígenas que não possuíam imunidade prévia. A combinação de varíola, violência, escravidão e outras doenças dizimou cerca de 90% dos habitantes originais das Américas até 1600.
Embora historiadores e cientistas já compreendam há muito tempo o impacto da doença, a história da disseminação da varíola provém principalmente de registros históricos, escritos por colonizadores europeus e que podem não ter capturado completamente a transmissão entre os povos indígenas. Além disso, há muito que os cientistas desconhecem sobre as cepas virais específicas responsáveis pela pandemia devido à falta de evidências de DNA da varíola antiga nas Américas.
No novo estudo, os pesquisadores identificaram DNA antigo do vírus da varíola nos ossos de dois indivíduos incas mumificados do norte do Chile: uma mulher adulta e um homem adulto que viveram entre 1492 e 1631.
“Nenhum de nós esperava encontrar DNA do vírus da varíola na amostra coletada, então foi uma surpresa completa”, disse Shigeki Nakagome, geneticista do Trinity College Dublin e coautor do estudo, ao Live Science. A equipe de pesquisa não estava buscando patógenos antigos, mas sim compreender a história da população humana na região. “Não creio que haja qualquer registro histórico documentando a varíola nessa comunidade específica, então ninguém esperava encontrar evidências da doença.”
A análise dos dois genomas virais antigos mostrou que eles eram quase idênticos, sugerindo que os dois indivíduos provavelmente foram infectados durante o mesmo surto ou pela mesma cepa circulante.
Ao comparar os genomas de vírus da varíola antigos e modernos, os pesquisadores descobriram que o genoma correspondia a uma linhagem extinta que se separou de outra cepa europeia por volta de 1296, mas que é anterior às cepas modernas. Isso significa que o vírus da varíola encontrado nas múmias representa um estágio evolutivo entre as cepas europeias medievais e as cepas modernas, comprovando que os europeus levaram a varíola para as Américas.
“Apresentamos a primeira evidência molecular da introdução da varíola nas Américas por meio da colonização”, disse Nakagome.
“Este artigo é realmente excelente porque sabemos, através de registros históricos, que a varíola teve um enorme impacto nas populações indígenas das Américas”, disse Anne Stone, antropóloga da Universidade Estadual do Arizona que não participou do estudo, à Live Science. “Este artigo nos fornece a primeira descrição do patógeno durante o período colonial”, acrescentou, afirmando que corrobora o “registro histórico de que uma epidemia de varíola atingiu [as Américas]”.
O genoma também mostrou que, por meio de uma série de mutações, os genes que permitem que a varíola infecte espécies além dos humanos — genes presentes em vírus relacionados que infectam animais, como o vírus da varíola bovina — foram inativados, disse Bruno Romero González, biólogo computacional do Trinity College Dublin e principal autor do estudo, à Live Science. Com o tempo, essa antiga cepa de varíola tornou-se menos capaz de infectar animais. “Por causa disso, a varíola começou a se concentrar em atingir apenas humanos”, disse Romero González, adaptando-se, em última análise, para se tornar mais eficaz na infecção de pessoas.
Os pesquisadores esperam que mais amostras do antigo vírus da varíola sejam encontradas em toda a América, para completar o quadro da evolução e disseminação da varíola.
O estudo do DNA antigo também pode fornecer aos cientistas informações sobre como as doenças modernas podem se comportar, disse Stone. Compreender a evolução desse patógeno é particularmente importante porque o Mpox pertence ao mesmo grupo e é intimamente relacionado, afirmou ela. Estudos sugerem que o Mpox pode se comportar de maneira semelhante ao vírus da varíola, no sentido de que parece sofrer mutações para se adaptar aos hospedeiros humanos. “É sempre útil estudar patógenos antigos”, disse Stone, “pois isso nos ajuda a entender como esses patógenos se adaptam a nós.”
O estudo soma-se às crescentes evidências da presença de varíola em esqueletos indígenas antigos, incluindo dois bebês do século XVI enterrados no Peru, cujos ossos apresentam lesões sugestivas de infecção por varíola.










