A linguagem secreta por trás da cooperação animal

Animais de diferentes espécies frequentemente dependem de uma comunicação surpreendentemente sofisticada para trabalharem juntos, seja para encontrar comida, eliminar parasitas ou obter proteção.

Por Universidade da Cidade do Cabo – Faculdade de Ciências, com informações de Science Daily.

Os mangustos-listrados (Mungos mungo) podem cooperar com os javalis-africanos (Phacochoerus africanus) limpando-os, removendo carrapatos e outros parasitas, enquanto os javalis-africanos fornecem acesso a alimento e proteção contra predadores por meio de sua vigilância e presença. Exemplo de imagens do Parque Nacional Rainha Elizabeth, Uganda.
Os mangustos-listrados (Mungos mungo) podem cooperar com os javalis-africanos (Phacochoerus africanus) limpando-os, removendo carrapatos e outros parasitas, enquanto os javalis-africanos fornecem acesso a alimento e proteção contra predadores por meio de sua vigilância e presença. Exemplo de imagens do Parque Nacional Rainha Elizabeth, Uganda. Crédito: Leela Channer

Os animais não se comunicam apenas com membros da sua própria espécie. Novas pesquisas mostram que a comunicação também desempenha um papel crucial para ajudar diferentes espécies a trabalharem juntas.

Em uma revisão publicada na revista Animal Behaviour, uma equipe internacional de pesquisadores examinou como os animais usam vocalizações, movimentos corporais, exibições visuais e outros sinais para coordenar relações de cooperação entre espécies. As descobertas revelam as diversas maneiras pelas quais os animais trocam informações para sincronizar seu comportamento e manter parcerias que beneficiam ambos os lados.

Espécies diferentes podem cooperar em situações surpreendentemente diversas. Algumas aves guiam humanos até colmeias em troca de acesso à cera de abelha. Peixes limpadores removem parasitas de peixes maiores de recife e recebem uma refeição em troca. Com base em exemplos de aves, peixes, insetos e mamíferos, os pesquisadores mostram como a comunicação ajuda essas relações a funcionar e perdurar.

Como os animais se coordenam entre espécies diferentes

Para que a cooperação seja bem-sucedida, os animais muitas vezes precisam sincronizar suas ações para atingir um objetivo comum. Isso pode ser especialmente desafiador quando as espécies envolvidas percebem o mundo de maneiras diferentes.

Um exemplo é o indicador-de-mel-grande, ou guia-do-mel-maior (Indicator indicator), que usa vocalizações específicas para atrair humanos e guiá-los até colmeias. A ave também responde a chamados feitos por humanos. Em outro caso, os javalis-africanos usam posturas corporais distintas para convidar aves e mamíferos a limpá-los.

“Com base nos exemplos que conhecemos, os indivíduos coordenam suas ações para acessar recursos compartilhados, como alimentos, ou para trocar recursos por serviços, como proteção contra predadores”, disse a Dra. Katie Dunkley, autora principal e pesquisadora da Universidade de Oxford. “Estávamos particularmente interessados ​​em como o compartilhamento de informações permite essa estreita coordenação entre as espécies.”

A comunicação ajuda a gerenciar riscos.

Os sinais e as pistas comportamentais fazem mais do que iniciar a cooperação. Eles também ajudam os animais a identificar parceiros confiáveis ​​e reduzem o risco de serem explorados.

As interações com outras espécies podem ser benéficas, mas também podem ser perigosas. A comunicação permite que os animais distingam entre parceiros que oferecem um serviço genuíno e aqueles que podem se aproveitar deles.

Por exemplo, alguns peixes limpadores (como Labroides dimidiatus ) e camarões (como Urocaridella sp. ) exibem cores brilhantes e realizam movimentos distintos que sinalizam seu papel para peixes predadores, permitindo que as interações de limpeza ocorram com segurança. Da mesma forma, as larvas de borboletas licenídeas usam sinais químicos e vibracionais que incentivam as formigas a protegê-las em vez de comê-las.

A revisão também destaca a importância de olhar além dos sinais visuais. Muitas espécies dependem de informações coletadas por meio de múltiplos sentidos, o que sugere que os cientistas podem negligenciar formas importantes de comunicação se se concentrarem apenas no que os animais podem ver.

Sinais flexíveis e adaptáveis

Nem todos os sistemas de comunicação são iguais. Alguns permanecem altamente consistentes, enquanto outros variam dependendo da localização e das condições ambientais.

Peixes que buscam serviços de limpeza geralmente usam posturas previsíveis, como ficar de cabeça para baixo ou com a cauda para cima. Em contraste, pescadores que trabalham com golfinhos podem interpretar diferentes comportamentos dos golfinhos como sinais de quando lançar suas redes, e esses sinais podem variar de uma região para outra.

“Em algumas formas de cooperação interespecífica, as pistas e os sinais variam dependendo do contexto ecológico, das espécies envolvidas e se o sinal é herdado ou aprendido”, disse o autor sênior, Dr. van der Wal, pesquisador afiliado ao Instituto FitzPatrick de Ornitologia Africana da UCT. “Isso destaca o quão flexível e adaptável a comunicação interespecífica pode ser.”

Como a comunicação entre espécies evolui

Os pesquisadores também exploraram como os sistemas de comunicação entre espécies podem se desenvolver ao longo do tempo.

Alguns sinais podem começar como pistas simples, ou seja, características ou comportamentos que influenciam a resposta de outro animal, mesmo que originalmente não tivessem a intenção de comunicar informações. Ao longo das gerações, essas pistas podem se tornar sinais mais especializados.

Outros sinais de comunicação podem começar servindo a propósitos completamente diferentes, como ajudar os animais a cuidar da prole ou resolver conflitos. Eventualmente, esses comportamentos podem ser adaptados para uso em interações cooperativas entre espécies.

“Estudar como a informação flui entre as espécies nos dá uma visão poderosa de como os sistemas de comunicação se originam, mudam e, às vezes, coevoluem”, disse o Dr. Dunkley.

Grande esforço de pesquisa colaborativa

A revisão surgiu de um workshop interdisciplinar focado na cooperação entre espécies, que ocorreu em Cambridge em julho de 2023. Pesquisadores que estudam uma ampla gama de sistemas participaram do evento.

O artigo resultante inclui 58 autores de diversas áreas, incluindo antropologia, biologia e linguística. Reúne também especialistas que estudam a cooperação animal entre espécies diferentes, interações entre espécies mistas e sistemas nos quais humanos treinam ativamente animais não humanos.

O que os cientistas esperam descobrir a seguir

Segundo os pesquisadores, a revisão destaca novas direções promissoras para o estudo de como a comunicação evolui entre as espécies e como essas interações influenciam os ecossistemas.

Os autores enfatizam a necessidade de estudos mais abrangentes envolvendo mais grupos de animais, juntamente com experimentos adicionais destinados a compreender como os sinais surgem, persistem e moldam o comportamento cooperativo.

“Ainda temos muito a aprender sobre como esses sistemas funcionam e evoluem”, disse o Dr. van der Wal. “Aguardamos com expectativa futuras pesquisas que revelem tanto essas interações quanto outras formas de cooperação interespecífica ainda por serem descobertas.”

O estudo foi publicado na revista Animal Behaviour com o título “A ecologia e a evolução de pistas e sinais na cooperação interespecífica entre animais” –  “The ecology and evolution of cues and signals in animal interspecies cooperation“.


Fonte da história:
Materiais fornecidos pela Faculdade de Ciências da Universidade da Cidade do Cabo . Nota: O conteúdo pode ser editado em termos de estilo e extensão.

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Referência do periódico :
K. Dunkley, M. Cantor, A.I. Afan, D.S. Ahlibi, S.J. Allen, J. Amphaeris, S. Atkins, M.C. Attwood, K. Bankhead, C.J. Blair, J.L. Bronstein, Y.R.R. Camargo, S. Carvalho, L.W. Channer, R.R.T. Cuthill, J. Das, F.G. Daura-Jorge, A.K. Deb, T. Dixit, E. Dounias, M. Dyble, D.R. Farine, E. Freymann, P. He, L.S. Hoffmann, H.A. Isack, E.B. Ilha, W.-B.W. Kamboe, A.O. Kilawi, A. Kingston, E.A. Laltaika, D.J. Lloyd-Jones, J. Lund, A.M.S. Machado, K. McGarvey, G.M. M\’manga, R. Mphetlhe, I.B. Moreno, C.A. Ngcamphalala, S.O. Nhlabatsi, C.J. Nwaogu, R. Pierotti, I.M. Reeves, E.J.H. Robinson, I. Samad, M. Sanda, N.B. Serpa, P.C. Simões-Lopes, C.N. Spottiswoode, T. Soma, H. Sridhar, T. Tun, N.T. Uomini, J.V.S. Valle-Pereira, L. van Holstein, B.M. Wood, D.L. Cram, J.E.M. van der Wal. The ecology and evolution of cues and signals in animal interspecies cooperationAnimal Behaviour, 2026; 123611 DOI: 10.1016/j.anbehav.2026.123611



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