Com uso de espectroscopia de fluorescência de raios X foi possível identifcar elementos ocultos sem danificar as pinturas.
Por Helmholtz Association of German Research Centres com informações de Phys.

Erich Mercker (1891–1973), pintor de Munique, obteve bastante sucesso em sua época. Entre 1933 e 1945, pintou obras com simbolismo nazista, incluindo “Die Stätte des 9. November” (A Rua do 9 de Novembro), que retrata o monumento Feldherrnhalle em Munique, em memória da tentativa fracassada de golpe de Estado do NSDAP em 1923. Após a guerra, Mercker, como muitos outros artistas alemães, simplesmente continuou sua carreira.
Mercker também continuou a pintar o tema “Die Stätte des 9. November” (A Rua do 9 de Novembro), mas sem símbolos nazistas e sob títulos alternativos como “Feldherrnhalle” (Pavilhão dos Soldados) ou “München am Odeonsplatz” (Munique na Odeonsplatz). Ele manteve a mesma perspectiva, mas omitiu os soldados e substituiu a bandeira nazista por uma bandeira bávara azul e branca. Este tema foi descoberto pelo produtor e cineasta Dr. Thomas Schuhbauer na casa de seus pais. Havia sido dado a eles como presente de casamento em 1966.
Tal como na versão do pós-guerra, a imagem mostra a bandeira da Baviera, sem a representação de soldados ou coroas de louros. Contudo, a parte superior do monumento ainda é visível. Isto sugere fortemente que a pintura data da era nazi, uma vez que o monumento foi destruído imediatamente após o fim da guerra. Além disso, são visíveis vestígios avermelhados de tinta na borda da bandeira.
Análise não destrutiva
Thomas Schuhbauer contatou o HZB e começou a colaborar com a Dra. Ioanna Mantouvalou, física que trabalha no grupo de pesquisa SyncLab da TU Berlin e do HZB. A Dra. Mantouvalou é especialista em espectroscopia de fluorescência de raios X (XRF). Esse método permite a identificação de elementos em materiais sem danificá-los.
Também pode ser usado para examinar camadas mais profundas, ou alguns milímetros (cerca de um décimo de polegada) abaixo da superfície de uma amostra de tinta.
A análise por fluorescência de raios X (XRF) mostra claramente que partes da pintura original foram cobertas para ocultar símbolos nazistas. Notavelmente, uma bandeira nazista vermelha está sob a bandeira bávara azul e branca. As coroas de flores no monumento, os soldados e os dois braços erguidos dos transeuntes também foram pintados por cima.
Para a repintura, foram utilizadas tintas a óleo contendo quantidades significativas de branco de titânio. Esse pigmento não aparece em nenhum outro lugar da pintura, porém, um tubo de tinta a óleo com o rótulo “Branco de Titânio 10103 Schmincke” foi encontrado entre os tubos de tinta de Mercker.
Outras evidências sugerem que Mercker revisou esta pintura por conta própria, embora às pressas ou sem atenção aos detalhes. Na revista Heritage Science, os autores apontam que muitos artistas raramente foram criticados por sua colaboração durante a era nazista até bem entrado o século 1960. A pintura agora faz parte do acervo do Centro de Documentação de Munique para a História do Nacional-Socialismo.
“Essa colaboração foi muito empolgante”, diz Mantouvalou. “Tínhamos áreas de especialização e experiências muito diferentes.”
Por exemplo, o professor Patrick Jung, historiador da arte, escreveu vários livros sobre Erich Mercker. Thomas Schuhbauer incluiu essa história pessoal em um documentário sobre as lendas do “Wirtschaftswunder” alemão. Magnus Bauer, sobrinho-neto de Erich Mercker, contribuiu com informações importantes por meio de seu conhecimento da história da família.
“Tivemos uma experiência maravilhosa, em parte porque percebemos o quanto o jargão técnico pode ser uma barreira”, diz Mantouvalou. “Tivemos que usar muita criatividade para garantir que nos entendêssemos de fato.”
Mais informações:
Ioanna Mantouvalou et al, XRF examination of the overpainting of fascist symbols in a painting by Erich Mercker, npj Heritage Science (2026). DOI: 10.1038/s40494-026-02577-6










