Parasitologia: Ceratopogonidae

Ceratopogonidae é uma família de moscas comumente conhecidas como mosquitos-pólvora, moscas-da-areia ou maruim são insetos hematófagos.

* Trecho do livro “Parasitologia Humana” de David Pereira Neves, páginas 373 a 375.

Ceratopogonidae - Um mosquito-pólvora picador fêmea, Culicoides sonorensis.
Ceratopogonidae – Um mosquito-pólvora picador fêmea, Culicoides sonorensis. Wikipedia.

INTRODUÇÃO

Os insetos pertencentes à família Ceratopogonidae sãoconhecidos vulgarmente como “mosquitos-pólvora”,”maruins”, “mosquitinhos de mangue” etc. São dípteros nematóceros extremamente pequenos, com 1 a 4 mm de comprimento. As antenas têm o último segmento dividido em 12 a 13 artículos, e são pilosas nas Emeas e plumosas nos machos. O corpo é escuro e pequeno. O aparelho bucal é dotipo picador-sugador,e as picadas são muito dolorosas porque a saliva, mesmo sendo injetada em quantidade muito pequena, é muito alergênica e provoca grande imtação na pele. As asas são em geral manchadas, e as veias anteriores são mais desenvolvidas que as posteriores. O abdome é curto, com a genitália externa pouco desenvolvida nas fêmeas e bem evidente nos machos.

Esta família era conhecida como Heleidae, mas conforme decisão da Comissão Internacional de Nomenclatura Zoológica foi definitivamente adotada a denominação Ceratopogonidae.

A família inclui cerca de 5.500 espécies, distribuídas em 125 gêneros, em quatro subfamílias: Ceratopogonidae, Leptoconopinae, Forcipomyinae e Dasyheleinae. Os gêneros Culicoides, Leptoconops e Forcipomyia (Lasiohelea) incluem espécies hematófagas no Brasil. Estão em Culicoides as espécies de maior interesse médico-veterinário, por sugarem sangue e por transmitirem agentes patogênicos. Os insetos dos outros gêneros são predadores ou parasitos de insetos; alguns têm importância na polinização de plantas cultivadas, como a seringueira, o cacaueiro e o abacateiro.

ESPÉCIES PRINCIPAIS

O gênero Culicoides tem cerca de 1.000 espécies no mundo, sendo conhecidas no Brasil cerca de 75. As espécies brasileiras mais importantes são: C. acatylus, C. amazonicus, C. debilipalpis, C. insignis, C. maruim, C.paraensis e C. reticulatus. A mais comum e mais bem estudada é C. paraensis; tem distribuição geográfica dos Estados Unidos até a Argentina e é incriminada como vetor do vírus da febre Oropouche e de helmintos de Mansonella (ver a seguir). Em estudo sobre maruins realizado em Salvador (Bahia), foi a espécie mais comum. Têm sido descritas espécies próximas a C.paraensis, de importância médica a ser estudada. E um grupo de difícil estudo, pelas pequenas dimensões dos insetos, e há poucos pesquisadores dedicados a ele.

O vírus Oropouche provavelmente infectou, de 1961 a1996, mais de 500.000 pessoas na Amazônia brasileira, eocorre também no Peru e no Panamá. A infecção por este vírus pode causar dor de cabeça, muscular e nas articulações; pode ocorrer meningite asséptica, sem óbitos ou seqüelas. A incidência é maior na época chuvosa (primeiro semestre). Apesar de os maruins, seus principais vetores, serem encontrados infectados em proporções muito baixas no Pará (1:12.500), seu grande número em certas épocas pode levar a uma transmissão muito alta; por exemplo, em Serra Pelada, atingiu em pouco tempo 4.000 dos 6.000 habitantes. Além disso, C.paraensis foi incriminado como transmissor de Mansonella ozzardi e M. perstans. O vetor de M. ozzardi pode ser Simuliidae ou Ceratopogonidae; no norte da Argentina, insetos de ambas as famílias são vetores. A eficiência dos dípteros de cada família na transmissão depende da susceptibilidade das espécies.

Em outros continentes e na região do Caribe, maruins transmitem vírus como o Blue Tongue e Akabane, de grande importância veterinária, além da Rift Valley Fever, que ocorre na África, atingindo o gado e humanos, e que recentemente surgiu na Arábia Saudita, neste caso com suspeitade transmissão por culicídeos. Vários protozoários de potencial importância veterinária, como Haemoproteus, Leucocytozoon e Hepatocystis, podem ser transmitidos por maruins.

A maior importância dos maruins está ligada ao ataque maciço a humanos e animais domésticos, às vezes em”nuvens”, que tomam inviável a vida em certas regiões, especialmente próximo a mangue, praias e de certas plantações, com grande riqueza em matéria orgânica no solo. Por exemplo, na região de Jaraguá do Sul e Corupá, no leste de Santa Catarina, eles constituem sério incômodo, estando provavelmente relacionados com o plantio intensivo de bananeiras.

desenho de Culicoides ou mosquito-pólvora
Culicoides ou mosquito-pólvora: A) fêmea, mostrando o aspecto geral do corpo e das asas; b) cabeça de macho apresentando as antenascom pêlos e os três últimos segmentos mais longos; C) detalhe do abdome do macho; D) cabeça da fêmea apresentando as antenas pouco pilosase com o último segmento longo; E) detalhe do abdome da fêmea.


A picada de Culicoides, assim como de insetos de outros gêneros, é muito dolorosa, e pode provocar reações cutâneas graves, semelhantes a eczema. Na Polinésia Francesa, foram observados numerosos casos de infecção cutânea generalizada e linfadenopatia, em conseqüência das picadas de maruins do gênero Leptoconops. Animais domésticos, especialmente bezerros e cavalos, podem sofrer muito com as picadas muito numerosas; elas podem levar os bezerros a óbito.

A possível entrada ou dispersão de vírus perigosos, como o da doença de bovinos e ovinos, chamada de blue tongue, em nosso país, aumenta a importância do estudo e controle destes insetos. Esta virose ocorre no Brasil, mas nada se sabe sobre seus vetores; nos Estados Unidos, é transmitida por maruins do complexo de espécies C.variipennis e outras espécies.

BIOLOGIA

Somente as fêmeas são hematófagas, e ambos os sexos alimentam-se de substâncias açucaradas diversas, provenientes de flores, e possivelmente de frutos maduros e secreções de pulgões etc. O horário de picada é variável deacordo com a espécie e com o clima, sendo mais comum ao anoitecer e em épocas mais quentes e úmidas do ano. Costumam picar mais ativamente quando está ameaçando chuva e na lua cheia. A atividade hematofágica é mais comum fora dos domicílios, mas podem também invadi-los. Espéciede Leptoconops, em períodos chuvosos, costumam invadir domicílios, atacando os habitantes vorazmente, em diversos Estados do Brasil: Minas Gerais, Goiás, Bahia, São Paulo.

As fêmeas, após a cópula, exercem a hematofagia sobre mamíferos ou aves. Dois a três dias após, efetuam postura; cada fêmea pode fazer sete oviposições, cada uma com 30 a 120 ovos. Podem viver até 40 dias, pondo um total de 700 a 800 ovos. A postura é feita sempre em locais muito úmidos e ricos em matéria orgânica, tais como: lama, cacau e bananeira em decomposição, solo com estrume, areia, mangue, ocos de árvores, bromélias. O período de incubação é de dois a sete dias, dependendo da temperatura ambiente. A larva é muito ativa e se alimenta de plâncton; as de algumas espécies podem ser predadoras, até de larvas de culicídeos muito maiores. A larva sofre três mudas em três semanas. As larvas de quarto instar mudam então para pupas, deslocando-se para ambientes menos úmidos ou, nocaso de estarem em água, para a sua superfície.

As pupas possuem dois sifões respiratórios evidentes. Cerca de três dias depois, emergem os adultos, que após endurecerem a cutícula por cerca de uma hora voam para a cópula e a hematofagia. Não têm capacidade muito grandede vôo mas, por seu tamanho muito pequeno, podem ser transportadas pelo vento para grandes distâncias.

CONTROLE

Apesar de os maruins serem bastante sensíveis aos inseticidas, é muito difícil, por seus hábitos, atingi-los. Os adultos raramente entram em contato com paredes e outras superfícies que podem ser tratadas com inseticidas. Os criadouros são amplos, de fauna complexa e pouco conhecidos, o que torna inviável seu tratamento com inseticidas,devido a poluição e ao custo. Nas épocas e horários em que eles estão mais ativos, é possível aplicar inseticidas em nebulização, de modo a evitar ataques muito intensos a população. Para C. paraensis, por exemplo, o horário da tarde seria o mais conveniente. É preciso um estudo prévio em cada área, para identificar as espécies mais irritantes e a sua biologia, com especial realce para as épocas, os locais e horários de maior atividade de hematofagia no homem e em animais de interesse econômico. Pode-se usar Malathion nos criadouros que restarem após a modificação (ver a seguir), e piretróides para a nebulização.

A aplicação em janelas e portas de telas que sejam fechadas a ponto de impedir a entrada dos maruins prejudicaria a circulação de ar. Telas comuns, impregnadas periodicamente com inseticidas, impedem a sua entrada nos domicílios. Os repelentes em pele e roupas podem ser úteis, mas sua utilização é pouco viável, devido ao custo, a eliminação pelo suor e a possível irritação de pele e mucosas.

Após definir os criadouros das espécies economicamente importantes, pode-se modificá-los por meio de aterros, drenagens ou alagamentos súbitos, para matar as formas imaturas. Estas modificações precisam ser feitas com muito cuidado. Por exemplo, na Jamaica, o aterro de grande área de mangue com areia de praia, para controlar maruins de uma espécie, fez proliferar outra, ainda mais irritante que aquela. O problema só foi solucionado pela cobertura do terreno com grama, plantada pelo menos 1 metro acima do nível da água.

Como os turistas são muito mais exigentes que pessoas em outras atividades, os maruins, assim como os borrachudos, devem ser levados em conta no planejamento de novos empreendimentos turísticos, para evitar prejuízos posteriores. O enterramento frequente de frutos de cacau e de talos de bananeira é útil para o controle de C. paraensis.

Em espécies que também se alimentam em animais domésticos, pode-se tentar a aplicação de ivermectina ou inseticidas de uso tópico, mas já foi relatada resistência a piretróides utilizados em brincos colocados nos animais.

Nota: os dípteros da família Chironomidae são filogeneticamente próximos dos maruins; são parecidos com os culicídeos, mas não são hematófagos. Há numerosas espécies, cujas formas imaturas vivem principalmente em coleções de água de vários tipos. Em alguns casos, os adultos podem emergir em números muito grandes, podendo causar incômodo e reações alérgicas; a hemoglobina que certas larvas contêm costuma ser importante para causar alergia. Em algumas regiões do Sudão, suas formas imaturas, muito numerosas, têm sido usadas como alimento, não só de peixes, mas de humanos também.




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