Mudanças nos seus hábitos alimentares podem trazer benefícios para você e para o planeta.
Por Sara Håkansson, Universidade de Lund com informações de Medical Xpress.

É sabido que o consumo abundante de vegetais, grãos integrais e leguminosas traz benefícios à saúde. Mais surpreendente, porém, é que pessoas que adotam uma alimentação ecologicamente correta também apresentam valores nutricionais superiores aos esperados pelos pesquisadores. Essa é a conclusão de um novo estudo da Universidade de Lund.
A dieta EAT-Lancet é uma diretriz alimentar global desenvolvida para promover tanto a saúde humana quanto um planeta sustentável. Ela se baseia em alimentos de origem vegetal ricos em grãos integrais, leguminosas, frutas e verduras, com pequenas quantidades de produtos de origem animal — sobretudo, um consumo de carne consideravelmente menor do que o recomendado pela Agência Sueca de Alimentos.
“Havia preocupações de que uma dieta com menos carne e outros produtos de origem animal aumentaria o risco de deficiências nutricionais. Mas não observamos isso. Pelo contrário, a maioria daqueles que se alimentaram de acordo com as diretrizes alimentares planetárias apresentaram um bom estado nutricional”, afirma Anna Stubbendorff, que era doutoranda na Faculdade de Medicina da Universidade de Lund e fazia parte da Escola de Pós-Graduação da Agenda 2030.
O estudo acaba de ser publicado na revista The Lancet Planetary Health e faz parte da tese de doutorado sobre os efeitos na saúde das recomendações dietéticas planetárias, que ela defendeu em 16 de janeiro deste ano.
Os resultados do presente estudo mostram que a ingestão de nutrientes entre aqueles que seguiram uma dieta amiga do clima foi totalmente comparável à daqueles que consumiram a mesma quantidade de uma dieta “típica” com uma maior proporção de produtos de origem animal. Em outras palavras: a maioria daqueles que se alimentaram de forma semelhante às novas recomendações obteve quantidades suficientes de vitaminas e minerais essenciais, apesar da dieta EAT-Lancet conter menos carne.
As medidas do estado nutricional baseadas no sangue também foram comparáveis. Os pesquisadores não têm certeza absoluta sobre os motivos, mas uma explicação possível é que o corpo humano adapta a absorção de nutrientes aos níveis presentes no organismo e, portanto, absorve mais quando necessário, explica ela.
Foram observadas algumas discrepâncias entre aqueles que seguiram dietas mais sustentáveis. Primeiro, os níveis da vitamina B folato (ácido fólico) foram mais elevados nesse grupo do que nos demais participantes — um achado inesperado e positivo. Segundo, houve um aumento no risco de anemia (deficiência de ferro) entre as participantes do sexo feminino. A diferença foi pequena — 4,6% em vez de 3,3% —, mas Stubbendorff sugere que os alimentos poderiam ser fortificados ou que os grupos de risco recebam suplementos para atingirem bons níveis sanguíneos.
Suas conclusões são baseadas em análises do extenso Estudo de Dieta e Câncer de Malmö, no qual 26.000 pessoas relataram seus hábitos alimentares e foram acompanhadas por várias décadas.
A resposta de Stubbendorff à questão de saber se a dieta EAT-Lancet é sustentável tanto para os seres humanos quanto para o meio ambiente é, portanto, um claro sim.
“É possível combinar uma dieta ambientalmente sustentável com boa saúde. Os estudos mostram que esses padrões alimentares podem reduzir o risco de doenças e morte prematura sem comprometer a ingestão de nutrientes na maioria da população. Há sinergias positivas entre saúde e sustentabilidade”, afirma Stubbendorff.
Mais grãos integrais — e substancialmente menos carne.
Stubbendorff, nutricionista de formação, iniciou seu doutorado na Faculdade de Medicina e na Escola de Pós-Graduação Agenda 2030 da Universidade de Lund em 2019. Nesse mesmo ano, foi publicada a primeira versão da dieta EAT-Lancet, e ela decidiu examinar a sustentabilidade da nova dieta sob a perspectiva da saúde.
“Com as recomendações dietéticas EAT-Lancet, duas vertentes foram unidas: uma dieta que visa ser sustentável tanto para os seres humanos quanto para o planeta. Isso abriu um campo de pesquisa completamente novo. Será que o que é sustentável para o planeta aumentará ou diminuirá o risco de doenças e deficiências nutricionais para aqueles que seguirem a dieta?”
Desde então, ela publicou cinco artigos científicos incluídos na tese de doutorado “Dietas ambientalmente sustentáveis e saúde humana — Adequação nutricional, risco de doenças e mortalidade”. Além disso, durante seus estudos de doutorado, ela foi autora e coautora de outros 23 artigos relacionados à alimentação e saúde.
Os hábitos alimentares suecos estão longe de ser sustentáveis.
Então, como se saem os hábitos alimentares suecos do ponto de vista climático e de sustentabilidade? Em uma comparação global do impacto climático, não muito bem. Em um ranking de 156 países, a Suécia ocupa a 13ª posição de baixo para cima — logo atrás de nações tradicionalmente consumidoras de carne, como os EUA e a Nova Zelândia. A explicação é clara: os consumidores suecos consomem muita carne e laticínios, o que aumenta as emissões. Atualmente, o consumo de carne é de cerca de 680 gramas por pessoa por semana.
Para que a Suécia se aproxime da dieta recomendada pela EAT-Lancet, é necessária uma redução drástica no consumo de carne e laticínios. As Recomendações Nutricionais Nórdicas, nas quais a Agência Sueca de Alimentos baseia suas orientações, agora levam em consideração alguns fatores climáticos.
Mas as diferenças são notáveis. De acordo com as recomendações nórdicas, o consumo de 350 a 400 gramas de carne vermelha por semana é aceitável — várias vezes superior ao limite de 90 gramas estabelecido pela EAT-Lancet. Ao mesmo tempo, a Suécia não possui diretrizes para o consumo de laticínios e aves, áreas em que a EAT-Lancet especifica um máximo de 250 gramas de laticínios e 30 gramas de frango por dia.
“Há muita atenção voltada para a carne, mas outras coisas sobre as quais também podemos influenciar em nossa região são não comer mais do que precisamos e acabar com o desperdício de alimentos — a superprodução de alimentos também esgota os recursos do planeta. Podemos também falar mais sobre o que devemos comer mais, como grãos integrais e leguminosas. Há um grande potencial para a saúde pública aí”, diz Stubbendorff.
Relações entre saúde e impacto ambiental
Sua tese de doutorado também inclui estudos anteriores, e uma das descobertas mais importantes foi que as pessoas que se alimentaram mais de acordo com a dieta EAT-Lancet apresentaram um risco relativo de morte por doença cardiovascular aproximadamente 33% menor em comparação com aquelas que menos aderiram à dieta. Isso não significa que um terço a menos de pessoas morreram, mas sim que a probabilidade de morte por doença cardiovascular foi cerca de um terço menor no grupo que seguiu o padrão alimentar mais rigorosamente.
Ao mesmo tempo, o risco relativo geral de morte prematura foi cerca de 25% menor, e a mortalidade relacionada ao câncer diminuiu em proporção quase igual. Os resultados são baseados em dados observacionais e mostram associações entre padrões alimentares e mortalidade, mas não podem estabelecer relações causais diretas.
Existem incertezas nos resultados? Sim — medir o que as pessoas comem geralmente é difícil. “Mas o Estudo de Dieta e Câncer de Malmö que analisamos utilizou um método excepcionalmente avançado, com diário alimentar, questionário e entrevistas. O estudo também acompanhou um grande grupo por um longo período. Portanto, mesmo que haja incertezas nos dados, considero os resultados robustos”, afirma ela.
Ela agora espera que especialistas e tomadores de decisão ousem abordar a questão de nossos hábitos alimentares, mesmo que seja um tema delicado. Hoje, a produção global de alimentos responde por cerca de um terço das emissões totais de gases de efeito estufa, utiliza cerca de 70% da água doce do mundo e é o principal fator de perda de biodiversidade, sendo a agricultura identificada como uma ameaça para a maioria das espécies em risco de extinção.
“É importante que esta questão seja abordada com base científica. Temos uma oportunidade fantástica se tivermos sucesso com essas mudanças importantes”, afirma ela.
Detalhes da publicação
Anna Stubbendorff et al, Adequação nutricional da dieta EAT-Lancet: um estudo de coorte populacional sueco, The Lancet Planetary Health (2026). DOI: 10.1016/j.lanplh.2025.101416










