Renomado chef brasileiro se recusa a preparar jantar vegano para Príncipe William

Saulo Jennings, embaixador gastronômico da ONU e fervoroso defensor da culinária amazônica, acredita que o veganismo não se encaixa em sua visão de culinária sustentável.

Por Rafael L. Marini, com informações de Le Parisien.

O chef brasileiro Saulo Jennings recusou-se a preparar um jantar vegano para a cerimônia do Earthshot Awards, dedicada a causas ambientais, que aconteceu na quarta-feira no Rio de Janeiro, Brasil, na presença do Príncipe William . Originário da Amazônia, ele explicou que tem um profundo apego aos sabores de sua região, como o pirarucu, um grande peixe de água doce. E, acima de tudo, para ele, o desenvolvimento sustentável é uma questão de equilíbrio.

“Pediram-me para criar um menu 100% vegano, e não me senti à vontade com isso porque o meu trabalho é precisamente mostrar que a Amazónia é sustentável, e isso inclui o peixe”, explicou à AFP. “Cheguei mesmo a sugerir a criação de um menu amazónico com pratos predominantemente vegetarianos, mas que também incluísse peixe de origem sustentável, mas essa ideia acabou por não ser aceite.” Acrescentou: “Até onde sei, não foi uma exigência da família real.”

Ao serem contatados pela AFP, os organizadores do prêmio Earthshot se recusaram a comentar.

“É perigoso tratar o veganismo como sinônimo de sustentabilidade.”

Saulo Jennings cresceu às margens do rio Tapajós, no norte do Brasil, onde abriu o primeiro de seus seis restaurantes há 16 anos. Nomeado embaixador gastronômico da ONU em 2024, ele já cozinhou para chefes de Estado, bem como para estrelas como Mariah Carey .

“Tenho enorme respeito por aqueles que escolhem esse caminho (o veganismo)”, acrescentou. “Mas acho perigoso tratar o veganismo como sinônimo de sustentabilidade. São coisas diferentes. A floresta é um ecossistema equilibrado; precisa de pessoas, animais e plantas vivendo juntos. O que me preocupa é quando isso se torna uma imposição cultural.”

“Na Amazônia, somos veganos, vegetarianos ou carnívoros sem nem pensar. Comemos o que a floresta nos oferece. Essa relação com a comida é ancestral”, explicou o chef brasileiro.

Além disso, este brasileiro de 47 anos apresentará ingredientes da maior floresta tropical do mundo, na cidade amazônica de Belém, na cúpula de chefes de Estado e de governo que antecede a COP30, a conferência climática das Nações Unidas.

Quem assume o posto, em substituição a Saulo, é a chef carioca Tati Lund, dona do Org Bistrô, no Rio de Janeiro, que serve apenas pratos sem carne. A casa foi eleita como o terceiro melhor restaurante vegetariano em solo carioca, neste ano, pelo Prêmio Rio Show de Gastronomia.

Chef paraense Saulo Jennings e o príncipe William
Chef paraense Saulo Jennings e o príncipe William – AFP

Veganismo X Sustentabilidade

O veganismo tem encontrado cada vez mais espaço nas discussões sobre meio ambiente, ética e saúde. Mas, afinal, por que essa dieta é considerada mais sustentável? A resposta está em fatores como menor impacto ambiental, uso eficiente de recursos e proteção da biodiversidade. Entenda os principais motivos que fazem do veganismo uma das escolhas alimentares mais responsáveis para o futuro do planeta.

1. Menos emissões e uso racional de recursos

Optar por uma dieta vegana representa uma das formas mais efetivas de reduzir as emissões de gases de efeito estufa (GEE) e o consumo de água e solo. Estudos indicam que pessoas com dietas veganas têm uma pegada de GEE significativamente inferior à de quem consome carne regularmente — por exemplo, uma investigação no Reino Unido encontrou que veganos produziram em média cerca de 2,89 kg CO₂-eq/dia, enquanto os carnívoros produziram cerca de 7,19 kg CO₂-eq/dia.

Em outro levantamento, dietas baseadas exclusivamente em plantas mostraram reduções de 21% a 70% nas emissões de GEE em comparação com dietas onívoras, com média em torno de 50%. Essas evidências reforçam como a transição para mais alimentos vegetais e menos produtos de origem animal contribui para uma alimentação mais consciente e alinhada aos limites ambientais.

A World Health Organization também destaca que dietas à base de plantas são mais sustentáveis e saudáveis quando bem estruturadas. Isso ocorre porque a produção de carne e laticínios requer grandes quantidades de grãos, água e energia — além de liberar metano e óxido nitroso, dois potentes gases de efeito estufa.

2. Proteção das florestas e da biodiversidade

A pecuária é uma das principais causas de desmatamento e perda de biodiversidade em escala global. Ao reduzir o consumo de carne, o veganismo diminui a pressão por novas áreas de pastagem e ajuda a conservar florestas.

Além disso, priorizar alimentos vegetais permite restaurar ecossistemas e recuperar solos degradados, ampliando o potencial de sequestro de carbono e mitigando os efeitos da crise climática.

3. Maior eficiência na produção de alimentos

Dietas veganas também tornam o sistema alimentar mais eficiente. Isso porque a produção vegetal destinada ao consumo humano exige menos recursos e energia do que aquela usada para alimentar animais de corte e ainda traz diversos benefícios para a saúde, como menor risco de câncer e infarto.

Estudos apontam que, ao eliminar essa “etapa intermediária”, é possível alimentar muito mais pessoas com a mesma quantidade de grãos e leguminosas. Essa eficiência pode fortalecer a segurança alimentar global e reduzir o desperdício de recursos naturais.

4. Estilo de vida sustentável e transformação social

O veganismo vai além da alimentação: trata-se de um movimento de consumo consciente. Reduzir o uso de produtos de origem animal também diminui o incentivo a práticas agropecuárias intensivas e poluentes, abrindo espaço para cadeias produtivas mais éticas e locais.

Segundo a Vegan Society, pessoas com comportamento pró-ambiental têm mais chances de aderir a dietas à base de plantas. Assim, o veganismo não se resume ao que vai no prato — é uma atitude de responsabilidade ecológica e social.

5. Desafios e importância do planejamento

Embora o veganismo ofereça inúmeros benefícios, é essencial que a dieta seja planejada de forma equilibrada. Falta de atenção à ingestão de nutrientes como vitamina B12, ferro e cálcio pode gerar deficiências. Essa atenção deve ser tida também por quem tem uma dieta onívora.

Além disso, produtos veganos ultraprocessados ou importados de longa distância podem ter alta pegada ambiental. Para que o veganismo seja verdadeiramente sustentável, é ideal priorizar alimentos frescos, locais e minimamente processados.



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