Cientistas revelam o segredo do chá verde para queimar gordura

Os compostos naturais do chá verde podem conter o segredo para queimar gordura e equilibrar o metabolismo.

Por Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo com informações de Science Daily.

chá verde
O extrato de chá verde ajudou camundongos obesos a perder até 30% do peso corporal e melhorou a função metabólica, mesmo em condições laboratoriais cuidadosamente controladas. As descobertas destacam seus efeitos únicos no combate à gordura e seu potencial para o tratamento natural da obesidade. Crédito: Shutterstock

O chá verde é uma bebida milenar reconhecida por suas propriedades medicinais e antioxidantes. Tem sido amplamente estudado por seus efeitos benéficos em doenças metabólicas, como obesidade e diabetes tipo 2. Estudos recentes financiados pela FAPESP aprofundaram nossa compreensão dos mecanismos de ação dessa infusão e revelaram que o tratamento com chá verde reduziu o peso e melhorou significativamente a sensibilidade à glicose e a resistência à insulina em camundongos obesos. Esses resultados reforçam a potencial relevância da bebida como adjuvante no tratamento da obesidade em humanos.

Rosemari Otton liderou os estudos do Programa de Pós-Graduação Interdisciplinar em Ciências da Saúde da Universidade Cruzeiro do Sul, em São Paulo, Brasil. A cientista, que se dedica há mais de 15 anos à pesquisa do chá verde, explica que sua motivação inicial veio da curiosidade sobre a verdade por trás da crença popular de que a bebida auxilia na perda de peso. Os resultados de seu estudo mais recente foram publicados na revista Cell Biochemistry & Function .

Para estudar os efeitos do chá verde na obesidade, a equipe de pesquisa alimentou camundongos durante quatro semanas com uma dieta hipercalórica, com gordura e o que eles chamam de “dieta de cafeteria”, que imita a dieta ocidental. “Damos a eles chocolate, biscoitos recheados, doce de leite, leite condensado… Em outras palavras, o mesmo tipo de alimento que muitas pessoas consomem diariamente”, diz Otton.

Após essa fase inicial, os animais passaram pelo experimento com chá verde por mais 12 semanas. Durante esse período, continuaram com a dieta hipercalórica, mas alguns deles passaram a receber extrato padronizado de chá verde na dose de 500 mg por quilo de peso corporal, administrado por via intragástrica (por gavagem).

“É um método que garante que todos recebam a dose exata que queremos estudar. Se colocarmos na água, por exemplo, não teríamos como saber quanto o animal realmente ingeriu”, diz o pesquisador. Para humanos, essa quantidade seria equivalente a consumir cerca de 3 gramas de chá verde por dia, ou três xícaras.

No entanto, segundo a pesquisadora, nem todo chá verde comercial atende aos padrões de qualidade necessários. “Sachês de chá prontos nem sempre garantem a quantidade ou a qualidade dos compostos. O ideal para o consumo seria usar extrato de chá verde padronizado, como os encontrados em farmácias de manipulação. Essa é uma forma concentrada de usar a planta, com garantia da presença de flavonoides, que são os compostos benéficos à saúde presentes na planta do chá verde”, ressalta Otton.

Uma diferença metodológica no estudo foi a temperatura ambiente controlada. Os animais foram mantidos em um ambiente termoneutro (28 °C) durante todo o experimento. As instalações para animais geralmente mantêm uma temperatura média de 22 °C, o que representa frio crônico para camundongos.

“O frio excessivo ativa mecanismos regulatórios compensatórios no organismo dos animais, fazendo com que eles gastem mais energia para se manterem aquecidos. Isso pode mascarar os efeitos reais de qualquer substância”, explica a pesquisadora. “Se os animais estiverem em um ambiente mais frio, o efeito do chá é potencializado pela ativação do gasto energético devido ao frio. Mas, ao manter a termoneutralidade, conseguimos observar os efeitos do chá verde de forma ‘limpa’, sem interferência ambiental”, explica.

Um estudo anterior, publicado em agosto de 2022 no European Journal of Nutrition, constatou que camundongos obesos tratados com chá verde apresentaram uma redução de até 30% no peso corporal. “Se uma pessoa perde de 5% a 10% do seu peso corporal, isso já é bastante. Portanto, esse resultado em animais é muito significativo”, afirma o professor.

Efeito muscular

Outro destaque do estudo mais recente foi a preservação da morfologia muscular. A obesidade normalmente causa uma redução no diâmetro das fibras musculares, mas o chá verde preveniu essa atrofia muscular. “Uma maneira de avaliar a função muscular é observar o diâmetro das fibras. Se ele aumenta, temos mais componentes musculares ativos. O chá verde conseguiu manter esse diâmetro, mostrando que protege os músculos contra os efeitos nocivos da obesidade”, explica Otton.

Além dos dados morfológicos, os pesquisadores avaliaram a expressão de genes relacionados ao metabolismo da glicose. O tratamento com chá verde aumentou a expressão dos genes Insr , Irs1 , Glut4 , Hk1 e Pi3k – genes importantes para a captação e utilização da glicose pelos músculos. A atividade da lactato desidrogenase (LDH), enzima essencial para o metabolismo da glicose, também foi restaurada.

Segundo Otton, há evidências de que o chá verde não afeta o peso de animais magros, sugerindo que ele atua seletivamente contra o excesso de gordura corporal. “Ele faz com que animais obesos percam peso, mas mantém os animais magros com um peso equilibrado. Isso mostra que o chá parece precisar de um ambiente com excesso de nutrientes para agir, o que reforça a hipótese de que ele atua diretamente nas células de gordura.”

Outro aspecto investigado pela equipe foi a ação dos compostos isoladamente. “O chá verde é uma matriz complexa com dezenas de compostos bioativos. Tentamos separar esses compostos e estudar seus efeitos individualmente, mas o extrato como um todo é sempre mais eficaz. Há uma sinergia entre os compostos que não conseguimos reproduzir quando isolados”, diz ela.

Segundo a cientista, uma hipótese que explica o mecanismo pelo qual o chá verde afeta a obesidade envolve a adiponectina, uma proteína produzida pelos adipócitos que possui funções anti-inflamatórias e de regulação metabólica. “Realizamos um estudo com camundongos sem adiponectina, ou seja, que não a produzem. E nesses animais, o chá verde não teve efeito. Isso sugere que a adiponectina desempenha um papel fundamental no mecanismo de ação do chá”, comenta.

Efeitos da vida real

Apesar dos resultados encorajadores do estudo com camundongos, Otton ressalta que ainda não é possível determinar uma dose segura e eficaz de chá verde para humanos. Isso se deve principalmente à variabilidade dos extratos e ao fato de cada pessoa se comportar de forma diferente. “O ideal é o consumo crônico, como vemos em países asiáticos. No Japão, por exemplo, as pessoas consomem chá verde todos os dias, ao longo da vida, e as taxas de obesidade são baixas. Mas isso é diferente de tomar chá por cinco meses e esperar um efeito milagroso na perda de peso”, pondera.

A pesquisadora defende que tratamentos naturais e acessíveis devem ganhar espaço no combate à obesidade, principalmente como alternativas a medicamentos caros e frequentemente com efeitos colaterais. “A ideia é ter compostos seguros, naturais, eficazes e de alta qualidade. A planta Camellia sinensis oferece isso. Ainda estamos estudando todos os compostos envolvidos, mas não há dúvida de que o chá verde, como matriz vegetal rica em flavonoides, tem um importante potencial terapêutico.”

O pesquisador ressalta que a ciência busca sempre desenvolver soluções práticas. “O que vemos nos animais nem sempre se reproduz nos humanos. Mas, se quisermos fazer essa tradução para a vida real, precisamos pensar em todos os detalhes, como a temperatura ambiente. São esses cuidados que aumentam a validade dos nossos dados. Estamos longe de ter todas as respostas, mas estamos cada vez mais perto.”

Fonte da história:
Materiais fornecidos pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo . Nota: O conteúdo pode ser editado quanto ao estilo e comprimento.

Referência do periódico :
Celso Pereira Batista Sousa‐Filho, Marcus Vinicius Aquino Silva, Victória Silva, Kauan Lima, Allanis Valon, Isabela Fiorentino Souza Nascimento, Maria Angélica Spadella, Rosemari Otton. Does Green Tea Ameliorate Obesity in Mice Kept at Thermoneutrality by Modulating Skeletal Muscle Metabolism? Cell Biochemistry and Function, 2025; 43 (6) DOI: 10.1002/cbf.70094



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