Parasitologia: Balantidiose – Balantidium coli

Esse protista ciliado é o parasita causador da balantidiose ou balantidíase, uma infecção do intestino grosso do ser humano. 

* Trecho do livro “Parasitologia Humana” de David Pereira Neves, páginas 181/182

Balantidium coli, trophozoite. Native, Â 1000. Imagem: Researchgate.

A classe Ciliata apresenta grande número de espécies de importância na ecologia do aparelho digestivo de ruminantes e eqüideos. Nesses animais, várias espécies presentes no rúmen e no intestino grosso funcionam como simbiontes.

Uma espécie existente no intestino grosso de suínos, Balantidium coli (Malmsten, 1857) – em algumas situações pode parasitar o homem. Existe alguma diversidade de opiniões sobre a patogenicidade desse protozoário no homem; entretanto, como é o único ciliado que pode ser encontrado na espécie humana, merece ser estudado. Durante algum tempo foi muito discutida a pluralidade de espécies de Balantidium, tendo sido descritas duas espécies, B. coli e B. suis, ambas de suínos, mas diferentes pelos aspectos dos núcleos e do tamanho externo. Foi verificado posteriormente que todos dois eram uma única espécie – B. coli, com diferenças morfológicas devido ao momento reprodutivo do protozoário: as formas menores estavam se preparando para a conjugação e as maiores eram trofozoitos ativos.

O B. coli já foi encontrado nos seguintes hospedeiros: porco, homem, chimpanzé, vários macacos (Rhesus, Cynomolgi etc.), e raramente em cão, rato e cobaias, sendo os macacos os mais atingidos depois dos suínos.

MORFOLOGIA

Conforme veremos na figura a seguir, esse protozoário apresenta duas formas básicas: o trofozoito e o cisto. Otrofozoito mede cerca de 60 a 100 μm (micrômetro) de comprimento por 50 a 80 μm de largura. Apresenta o corpo todo recoberto de cílios. Na sua extremidade anterior possui uma fenda em direção ao citostoma; próximo à extremidade posterior apresenta um citopigio. Internamente, apresenta várias organelas, vacúolos digestivos e dois núcleos: o macro e o micronúcleo.

O cisto é mais ou menos esférico, medindo cerca de 40 a 60 m de diâmetro. Sua membrana cistica é lisa e, internamente, notamos o macronúcleo e vacúolos.

Balantidium coli. Imagem do livro “Parasitologia Humana” de David Pereira Neves, página 164

BIOLOGIA

Hábitat. O B. coli vive usualmente na luz do intestino grosso de seu hospedeiro, parecendo não ser capaz de penetrar em mucosas intestinais intactas. Entretanto, pode ser um invasor secundário, isto é, desde que a mucosa esteja lesada,é capaz de aí penetrar e reproduzir-se mesmo em úlceras profundas. Os cistos são vistos em fezes formadas, principalmente de suínos, que são seus hospedeiros habituais.

Ciclo Biológico. É do tipo monoxênico, apresentando dois tipos de reprodução: assexuada e sexuada.

A reprodução assexuada é feita por divisão binária, ocorrendo a bipartição no sentido transversal do protozoário. A reprodução sexuada é do tipo conjugação, através de qual dois organismos se unem temporariamente pelo citostoma (continuando a mover-se normalmente), para promover trocas genéticas. O macronúcleo degenera e desintegra-se no citoplasma de cada protozoário. O micronúcleo cresce e sofre divisão por meiose, que por sua vez é seguida de mitose; os micronúcleos em seguida migram e tomam sua posição citoplasmática em cada um dos protozoários envolvidos. Segue-se a separação dos indivíduos, com a formação de novos macronúcleos. Os protozoários assim reorganizados podem sofrer ou não novo processo de divisão binária transversal e, posteriormente formar cistos resistentes. Assim sendo, a reprodução assexuada tem como principal função a manutenção e ampliação da colônia do protozoário e a reprodução sexuada por conjugação tem importância nas trocas genéticas e na formação de cistos para a disseminação da espécie.

Transmissão. Através da ingestão de cistos que contaminam alimentos, água ou mesmo as mãos. Quando existe infecção humana, quase sempre essa ocorreu a partir de cistos (e mesmo de trofozoitos) provenientes de fezes suinas, que contaminaram as mãos ou alimentos humanos.

PATOGENIA

O B.coli é normalmente um protozoário comensal da luz do intestino de suínos, onde alimenta-se de amido, bactérias etc. Parece que sozinho não é capaz de penetrar em mucosas intactas. Na espécie humana, quando há alguma lesão na mucosa do colo e do ceco, há possibilidade de invasão secundária da mesma pelo Balantidium. Como é capaz de produzir hialuronidase, pode aumentar a lesão inicial, provocando necroses localizadas e úlceras. Essas lesões e a sintomatologia são muito semelhantes às que ocorrem na amebiase. O paciente, nessa situação, apresenta diarréia, meteorismo, dor abdominal, anorexia, fraqueza e, às vezes, febre.

Balantidium coli. Imagem Wikipedia

DIAGNÓSTICO

Clínico. Difícil de ser feito, em vista da semelhança da sintomatologia com a colite amebiana.

Laboratorial. Exame de fezes pelos métodos usuais, para a evidenciação de cistos (raros nos homens e, quando vistos, são encontrados em fezes formadas) ou de trofozoitos (encontrados em fezes diarréicas). Algumas vezes, há a necessidade de se fazer cultura das fezes, para evidenciação das formas. Os meios de cultura usados são: soro de cavalo ou então meio de Pavlova.

EPIDEMIOLOGIA

A distribuição geográfica da balantidiose é mundial, pois é a mesma da dos suínos. Assim, a maioria dos casos humanos está entre os tratadores, criadores, comerciantes e abatedores de suínos. O porco, portanto, é a fonte natural das infecções humanas. Apesar da transmissão poder ocorrer pelos trofozoitos, esse mecanismo é menos frequente, ois essa forma resiste pouco tempo (10 dias a 22ºC) no meio externo, enquanto que o cisto resiste mais (cerca de cinco semanas em fezes úmidas).

PROFILAXIA

É baseada em três fatos principais:

  • higiene individual dos vários profissionais que têm de trabalhar com suínos;
  • engenharia sanitária, a fim de impedir que excrementos de suínos alcancem os abastecimentos de água de
    uso humano;
  • criação de suínos em boas condições sanitárias, impedindo que suas fezes sejam disseminadas; se possível, devem ser amontoadas, para que a fermentação produzida mate os cistos ali presentes.

TRATAMENTO

Somente a adoção de dieta láctea, por alguns dias, é suficiente para eliminar o Balantidium do organismo humano (isto porque esses protozoários alimentam-se de amido). Entretanto, em alguns casos recomenda-se o uso de drogas: metronidazol (Flagyl) ou tetraciclinas.



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