Nesse ensaio, Voltaire examina as noções morais de certo e errado, questionando as bases religiosas e culturais que frequentemente definem o que é considerado virtuoso ou vicioso.
Trecho do livro Tratado de Metafísica – Capítulo IX – Voltaire.

Para que uma sociedade subsista, é preciso que haja leis, como é preciso haver regras para cada jogo. A maioria dessas leis parece arbitrária, dependem dos interesses, das paixões, das opiniões dos que as inventaram e da natureza do clima onde os homens se reuniram em sociedade. Num país quente, onde o vinho torna o homem furioso, julgou-se adequado considerar um crime bebê-lo. Em outros climas mais frios, é uma honra embebedar-se. Aqui, um homem deve contentar-se com uma mulher; acolá, é-lhe permitido ter tantas quantas puder alimentar. Num lugar, os pais e as mães suplicam aos estrangeiros que aceitem dormir com suas filhas; em todos os outros lugares, uma moça que se entregar a um homem estará desonrada. Em Esparta, encorajava-se o adultério; em Atenas, era punido com a morte. Entre os romanos, os pais tinham o direito de vida e de morte sobre seus filhos. Na Normandia, um pai não pode tirar um óbolo sequer dos bens de um filho, mesmo do mais desobediente. O nome do rei é sagrado em muitas nações e abominado em outras. Mas todos os povos que se conduzem tão diferentemente reúnem-se sob o mesmo ponto: denominam VIRTUOSO o que é conforme às leis estabelecidas e CRIMINOSO o que lhes é contrário. Assim, um homem que, na Holanda, se opuser ao poder arbitrário será um homem muito virtuoso; e aquele que, na França, quiser estabelecer um governo republicano será condenado aos piores suplícios. O mesmo judeu que, em Metz, seria enviado às galeras se tivesse duas mulheres, terá quatro em Constantinopla e será mais estimado pelos muçulmanos.
A maioria das leis contraria-se tão visivelmente que aquelas que governam um Estado importam muito pouco: o que importa é que, uma vez estabelecidas, sejam executadas. Assim, não há maiores consequências em que as regras para os jogos de dados ou de cartas sejam estas ou aquelas, mas ninguém poderá julgar um só momento se não seguir rigorosamente as regras arbitrárias convencionadas.
Cremos, ao contrário, que não deve haver quase nada arbitrário nas leis.
1º A razão é suficiente para nos fazer conhecer os direitos dos homens, direitos que derivam todos desta máxima simples: entre dois seres sensíveis, iguais por natureza, é contra a ordem que um faça sua felicidade à custa do outro.
2º A razão mostra igualmente que, em geral, é útil para o bem de muitas sociedades que os direitos de cada um sejam respeitados. Assegurando tais direitos de uma maneira inviolável, pode-se conseguir ou proporcionar à espécie humana toda a felicidade de que seja suscetível, ou dividi-la entre os indivíduos com a maior equidade possível.
Se examinarmos, em seguida, as diferentes leis, veremos que umas tendem a manter esses direitos e que outras atentam contra eles, que umas são conformes ao interesse geral e que outras são contrárias a ele. São, portanto, justas ou injustas por si mesmas. Assim, não é suficiente que a sociedade seja regida por leis, é preciso que estas sejam justas. Não é suficiente que os indivíduos se conformem às leis estabelecidas, é preciso que as próprias leis sejam conformes ao que exige a manutenção do direito de cada um.
Dizer que é arbitrário fazer tal lei ou uma contrária, ou nenhuma, é unicamente confessar que se ignora se tal lei é conforme ou contrária à justiça. Um médico pode dizer: é indiferente dar a este doente um emético ou uma ipecacuanha; mas isto significa que é preciso dar-lhe um vomitório, e ignoro qual dos dois remédios há de convir mais a seu estado. Na legislação, como na medicina, como nos trabalhos das artes físicas, o arbitrário só existe porque ignoramos as consequências de dois meios que de imediato nos parecem diferentes.
A virtude e o vício, o bem e o mal moral são, portanto, em todos os países, aquilo que é útil ou daninho à sociedade; e, em todos os lugares e em todos os tempos, aquele que mais se sacrificar ao público será considerado o mais virtuoso.
Parece, portanto, que as boas ações são apenas aquelas de que retiramos alguma vantagem, e os crimes, as ações que nos são contrárias. A virtude é o hábito de fazer coisas que agradam aos homens, e o vício, as que lhes desagradam.
Embora o que chamamos virtude em um clima seja precisamente o que chamamos vício em outro, e a maior parte das regras do bem e do mal difiram como as línguas e o vestuário, entretanto, parece-me certo que há leis naturais que os homens são obrigados a respeitar em todo o universo, malgrado as demais leis que possuam. Na verdade, Deus não disse aos homens: ‘Eis as leis que de minha boca vos dou, para que vos governeis por elas.’ Mas fez no homem o que fez em muitos outros animais: deu às abelhas um instinto poderoso graças ao qual trabalham e alimentam-se juntas, e deu ao homem certos sentimentos dos quais jamais poderá desfazer-se, vínculos eternos e primeiras leis da sociedade, prevista por Ele como forma da convivência humana.
A benevolência por nossa espécie, por exemplo, nasceu conosco e age sempre em nós, a menos que seja combatida pelo amor-próprio, que deve sempre vencê-la. Assim, um homem é sempre levado a auxiliar outro quando nada lhe custa fazê-lo. O selvagem mais bárbaro, voltando da carnificina e saboreando o sangue do inimigo que comeu, se enternecerá vendo os sofrimentos de um seu companheiro, dando-lhe todos os socorros que dele dependerem.
O adultério e a pederastia serão permitidos a muitos em muitas nações, mas não encontrareis nenhuma onde seja permitido faltar à palavra, pois a sociedade pode subsistir entre adúlteros e rapazes que se amam, mas não entre pessoas glorificadas por enganarem umas às outras.
O latrocínio era honrado em Esparta porque todos os bens eram comuns; mas desde que tenhais estabelecido o teu e o meu, ser-vos-á, então, impossível não encarar o roubo como contrário à sociedade e, por conseguinte, como injusto.
É tão verdadeiro que o bem da sociedade é a única medida do bem e do mal moral que somos forçados a modificar, conforme a necessidade, todas as ideias do justo e do injusto que formáramos.
Temos horror do pai que dorme com sua filha e consideramos infame, com o nome de incestuoso, o irmão que abusa da irmã. Mas, numa colônia nascente, onde somente sobrasse um pai com o filho e duas filhas, o cuidado tomado por essa família para não deixar perecer a espécie seria encarado por nós como uma ótima ação.
Um irmão que mata seu irmão é um monstro, mas um irmão cujo único meio para salvar sua pátria fosse sacrificar seu irmão seria um homem divino.
Todos amamos a verdade e dela fazemos uma virtude, porque é de nosso interesse não sermos enganados. Atribuímos mais infâmia à mentira do que a todas as outras más ações, porque é a mais fácil de esconder e a que menos custa cometer. Porém, em quantas ocasiões a mentira não se torna uma ação heroica! Quando se trata, por exemplo, de salvar um amigo, aquele que dissesse a verdade seria coberto de opróbrio; e não se faça diferença entre um homem que caluniasse um inocente e um irmão que, podendo conservar a vida de seu irmão por uma mentira, preferisse abandoná-lo, dizendo a verdade. A memória do Sr. de Thou, cujo pescoço foi cortado por não ter revelado a conspiração de Cinq-Mars, é uma bênção para os franceses. Se não tivesse mentido, seria abominado por eles.
Mas, dir-me-ão, não será, portanto, com relação a nós mesmos que haverá crime e virtude, bem e mal moral, de sorte que não haverá bem em si, independente do homem? Perguntarei aos que me propõem tal questão se há quente ou frio, doce ou amargo, bom ou mau odor, a não ser com relação a nós. Um homem que pretendesse que o calor existe sozinho não seria um raciocinador muito ridículo? Por que, então, aquele que pretende que o bem moral existe independente de nós raciocinaria melhor? Nosso bem e nosso mal físico só têm existência com relação a nós; por que nosso bem moral e nosso mal moral estariam em outro caso?
As intenções do Criador, que desejou os homens vivendo em sociedade, não foram suficientemente cumpridas? Se houvesse alguma lei, caída do céu, que tivesse ensinado aos seres humanos bem claramente a vontade de Deus, então o bem moral seria apenas a conformidade a essa lei. Se Deus tivesse dito aos homens: ‘Quero que haja muitos reinos sobre a terra e nenhuma república; quero que os caçulas tenham todos os bens dos pais e que se puna com a morte qualquer um que coma perus ou porcos’, então essas leis se tornariam certamente a regra imutável do bem e do mal.
Mas, como Deus não se dignou, que eu saiba, a imiscuir-se assim em nossa conduta, é preciso que nos atenhamos às dádivas que nos deu: a razão, o amor-próprio, a benevolência para com a nossa espécie, as carências, as paixões, todos os meios pelos quais estabelecemos a sociedade.
Muita gente estará prestes a dizer-me: ‘Caso meu bem-estar esteja em desorganizar vossa sociedade, em matar, roubar, caluniar, acaso não deveria eu ser detido? Acaso poderia abandonar-me sem escrúpulos a todas as minhas paixões?’ Nada tenho a dizer a essa gente senão que provavelmente será enforcada, assim como mandarei matar os lobos que quiserem roubar minhas ovelhas. As leis foram feitas precisamente para tal gente, como as telhas foram inventadas contra o granizo e a chuva.
No tocante aos príncipes, que têm a força nas mãos e que abusam dela para desolar o mundo; que enviam uma parte dos homens à morte e reduzem a outra à miséria, o defeito está nos homens que sofrem esses estragos abomináveis, frequentemente chegando mesmo a honrá-los com o nome de virtude. Só devem culpar a si mesmos pelas más leis que fizeram, ou pela pouca coragem para exigir a execução das boas.
Todos os príncipes que tanto mal fizeram aos homens são os primeiros a gritar que Deus deu as regras do bem e do mal. Não há um desses flagelos da terra que não faça atos solenes de religião, mas não vejo que se ganhe muito tendo tais regras. É uma infelicidade ligada à condição humana que, malgrado todo nosso desejo de autoconservação, nos destruamos mutuamente com furor e com loucura. Quase todos os animais comem-se uns aos outros, e na espécie humana os machos se exterminam pela guerra. Parece que Deus previu essa calamidade, fazendo nascer entre nós mais machos do que fêmeas. Com efeito, os povos que parecem ter chegado mais perto dos interesses da humanidade e que têm registros exatos dos nascimentos e das mortes, aperceberam-se de que, um pelo outro, nascem todos os anos um doze avos de machos mais do que de fêmeas.
Será muito razoável notar como todos esses assassinatos e banditismos são funestos à sociedade e sem nenhum interesse para a Divindade. Deus colocou os homens e os animais sobre a terra, deixando-lhes a tarefa de conduzirem-se o melhor possível. Infeliz a mosca que cair na teia da aranha; infeliz o touro que for atacado por um leão, e infelizes os carneiros que forem encontrados pelos lobos! Porém, se um carneiro dissesse a um lobo: ‘Faltas ao bem moral, Deus te punirá’, o lobo lhe responderia: ‘Faço meu bem físico, e parece que Deus não se preocupa muito de que eu te coma ou não’. O melhor que o carneiro poderia fazer seria não se afastar do pastor e do cão, capazes de defendê-lo.
Prouvera aos céus que um Ser Supremo nos tivesse dado leis e proposto penas e recompensas! Que nos tivesse dito: ‘Isto é vício em si, isto é virtude em si’. Mas estamos tão longe de possuir as regras do bem e do mal que, de todos aqueles que ousaram dar leis aos homens da parte de Deus, não houve um que tenha dado a décima milésima parte das regras de que precisamos na conduta da vida.
Se alguém inferir disso tudo que só resta abandonar-se sem reservas a todos os furores dos seus desejos desenfreados, e que, não havendo nem vício nem virtude em si, possa fazer tudo impunemente, primeiro esse homem precisará verificar se possui um exército de cem mil soldados bem afeitos ao seu serviço; ainda assim, arriscar-se-á muito declarando-se inimigo do gênero humano. Mas, se tal homem for somente um simples particular, por pouca razão que tenha, verá que escolheu um partido mau e que será punido infalivelmente, seja por meio dos castigos, tão sabiamente inventados pelos homens contra os inimigos da sociedade, seja tão somente pelo temor do castigo, suplício bastante cruel em si mesmo. Verá que a vida daqueles que desafiam as leis geralmente é a mais miserável. Moralmente, é impossível que um homem perverso não seja reconhecido, e tão logo seja somente suspeitado, perceberá que é objeto de desprezo e de horror. Ora, Deus dotou-nos sabiamente de um orgulho incapaz de suportar que os outros homens nos odeiem e nos desprezem. Ser desprezado por aqueles com quem se vive é coisa que ninguém pode e jamais poderá suportar. Talvez seja esse o maior freio que a natureza tenha posto nas injustiças dos homens. Foi pelo temor mútuo que Deus julgou de bom alvitre vinculá-los. Assim, todo homem razoável concluirá que, obviamente, é do seu interesse ser honesto. O conhecimento que terá do coração humano irá persuadi-lo de que, embora não exista nem virtude em si nem vício em si, nada o impedirá de ser bom cidadão e de cumprir todos os deveres da vida. Também observamos que os filósofos (batizados com o nome de incrédulos e libertinos), em todos os tempos, foram as pessoas mais honestas do mundo. Deixando de fazer aqui uma lista de todos os grandes homens da Antiguidade, sabemos que La Mothe Le Vayer, preceptor do irmão de Luís XIII, Bayle, Locke, Spinoza, Milorde Shaftesbury, Collins e outros foram homens de virtude rígida. Não foi apenas o temor do desprezo dos homens que os fez virtuosos, mas o gosto pela própria virtude. Um espírito reto é um homem honesto pela mesma razão que aquele que, não tendo o gosto depravado, prefere o excelente vinho de Nuits ao de Brie, e as perdizes de Mans à carne de cavalo. Uma educação sadia perpetua esses sentimentos em todos os homens, vindo com ela o sentimento universal que chamamos honra, do qual mesmo os mais corrompidos não podem desfazer-se, e que é o eixo da sociedade. Aqueles que necessitassem do socorro da religião para serem pessoas honestas seriam lastimáveis, e monstros da sociedade, se não encontrassem em si próprios os sentimentos necessários a essa sociedade, obrigados a buscar alhures o que deve ser encontrado em nossa natureza.











