Fascíola hepatica é um verme trematódeo da família dos fasciolídeos, de coloração avermelhada, do filo Platyhelminthes, parasita dos canais biliares do porco, boi, ovelha, cabra e, raramente, do homem.
* Trecho do livro “Parasitologia Humana” de David Pereira Neves, páginas 223 a 226.

A Fasciola hepatica (Linnaeus, 1758) é um parasito de canais biliares de ovinos, bovinos, caprinos, suínos e vários, mamiferos silvestres. E encontrada em quase todos os países, do mundo, nas areas umidas, alagadiças ou sujeitas a inundacões periódicas. A F. hepatica foi assinalada no Brasil, pela primeira vez, em 1918, em bovinos e ovinos do Rio Grande do Sul. Atualmente (1999) já é encontrada em animais nos seguintes Estados: S. Catarina, Paraná, São Paulo. Rio de Janeiro, E. Santo, M. Gerais e M. Grosso do Sul (na Bahia ocorreram casos humanos não autóctones). A F. hepatica pode, ocasionalmente, parasitar o homem e, em nosso país, já foram assinalados numerosos casos, sendo o primeiro deles, em 1958, em Mato Grosso. Posteriormente, já foram encontrados dois focos: um na região do Vale do Paraíba (São Paulo) e outro em Curitiba (Paraná); casos isolados também foram vistos em llhéus (Bahia). Todos os casos assinalados ocorreram em regiões onde a prevalência nos animais é bastante alta, variando de 10 até 74,7% de parasitismo.
A fasciolose animal está em expansão no Brasil; depois de um longo período em que ficou restrita aos Estados do Sul, alcançou o Vale do Paraíba em São Paulo, expandiu para o Mato Grosso e está sendo identificada em várias regioes de Minas Gerais. Desse modo, se forem feitos levantamentos coproscópicos humanos sistemáticos, é provável que apareçam novos casos de fasciolose. Fora do Brasil, têm sido referidos casos humanos na Argentina, Chile, Cuba, México, Porto Rico, São Domingos, Venezuela, Uruguai, França, Inglaterra e vários outros países.
Entre os criadores de animais, esse helminto é popularmente conhecido como “baratinha do figado.
MORFOLOGIA
O verme adulto tem um aspecto foliáceo; mede cerca de 3cm de comprimento por 1,5cm de largura e tem cor pardo-acinzentada. Apresenta uma ventosa oral (localizada na extremidade anterior), da qual segue uma faringe curta.
Dessa, partem ramos cecais (um de cada lado) até a extremidade posterior. Os cecos säo extremamente ramificados. Logo abaixo da ventosa oral vê-se a ventosa ventral ou acetabulo. Junto a esta, nota-se a abertura do poro genital. Esse parasito é hermafrodita, possuindo as seguintes características: aparelho genital feminino um ovário (ramificado), oótipo (órgão glandular que entra na constituição da parte feminina do aparelho genital dos trematodes, cestodes, etc), útero e glândulas vitelinas (essas são extremamente ramificadas, ocupando as partes laterais e posterior do parasito), e aparelho genital masculino dois testículos (muito ramificados), canal eferente, canal deferente e bolsa do cirro (órgão copulador). O tegumento apresenta-se coberto por espinhos recorrentes disseminados na porção anterior do helminto (Fig. 24.1).
BIOLOGIA
Habitat
Normalmente, a F. hepatica é encontrada no interior da vesícula e canais biliares mais calibrosos de seus hospedeiros usuais; no homem, que não é o seu hospedeiro habitual, a F. hepatica pode ser encontrada nas vias biliares, como também nos alvéolos pulmonares e esporadicamente em outros locais.
Ciclo Biológico
É do tipo heteroxênico, uma vez que necessita de hospedeiro intermediário; estes, no Brasil, são caramujos principalmente das espécies Lymnaea colunmela e L. viatrix. Em Curitiba essas espécies apresentaram (1987) os seguintes indices de infecção, respectivamente: 2,42% e 2,17%.
Os adultos põem ovos operculados que, com a bile, passam para o intestino, de onde são eliminados com as fezes. Os ovos possuem uma massa de células que, encontrando condições favoráveis de temperatura (25-30°C), umidade e ausência de putrefação, dão origem a um miracidio.
Essa forma, ainda, dentro do ovo, apresenta uma longevidade de até nove meses, quando permanece em ambiente não putrefeito e em presença de sombra e umidade. Em condições adversas, morre rapidamente.
O miracídio só sai do ovo quando o mesmo entra em contato com a água e é estimulado pela luz solar. Nessas condições, o miracídio sai ativamente do ovo, “levantando” o opérculo e passando pelo orificio deixado. O muco produzido pelo molusco atrai o miracidio, que nada aleatoriamente na água, mas ao perceber o muco se dirige para ele. Assim, pode penetrar em diversos moluscos aquáticos, porém se penetrar em algum diferente – Physa, por exemplo – morrerá.
Só completarão o ciclo os miracídios que alcançaram a Lymnaea. O molusco também sofre com a penetração dos miracídios; caso penetre um grande número, ele morrerá. Três a cinco miracídios
por molusco é um número ideal para a produção de cercárias. Caso não encontre o hospedeiro intermediário, morre em poucas horas. A vida média do miracídio é de seis horas.
Penetrando no molusco certo, cada miracídio forma um esporocisto, que dá origema várias (5 a 8) rédias. Essas podem dar origem a rédias de segunda geração (quando as condições do meio são adversas) ou cercárias. Desde que o miracídio penetrou no caramujo, até que inicie a liberação de cercárias, decorrem de 30 a 40 dias, à temperatura de 26°C (em temperaturas mais baixas o tempo alonga-se ou não se
processa a evolução). Cada molusco libera diariamente uma média de seis a oito cercárias, durante cerca de três meses.
Em observações recentes, verificou-se que cada miracídio é capaz de produzir cerca de 225 cercárias. A cercária mede 900 micra, com cauda única (não bifurcada). Logo que sodo caramujo, nada alguns minutos e depois perde a cauda com a secreção das glândulas cistogënicas, encista-se, aderindo na vegetação aquática ou na superficie d’água (tensão superficial da película aquática) e indo para o fundo d’água é a forma metacercária (cercária encistada). O processo de encistamento decorre num tempo de 15 minutos. Essa forma permanece infectante durante trës meses, em temperatura de 25-30°C; em umidade adequada e em temperaturas baixas (5°C), permanece viável até um ano.
O homem (ou animal) infecta-se ao beber água ou comer verdura (agriāo etc.) com metacercárias. Estas desencistam-se no intestino delgado, perfuram a parede do mesmo, caem na cavidade peritoneal, perfuram a cápsula hepática (ou cápsula de Glisson) e começam a migrar pelo parênquima hepático. Dois meses depois estão nos ductos biliares. A Fig. 24.2 é o esquema do ciclo.
Nota: Esporocistos são formas semelhantes a um saco contendo células germinativas, as quais darão origem a rédias, rédias são formas que já possuem abertura bucal, esboço de tubo digestivo, vendo-se também, células germinativas e cercárias (Fig. 24.2).
Transmissão
Processa-se através de ingestão de água e verdurdas contaminadas com metacercárias. Os animais se infectam bebendo água e alimentos (capins, gravetos etc.) contaminados com metacercárias.
PATOGENIA
A fasciolose é um processo intlamatório crônico do figado e dutos biliares. E mais grave nos animais, onde “a migração simultânea de grandes quantidades de formas imaturas pelo figado causa uma hepatite traumática e hemorragias” (Freitas, 1977). Além disso, provocaria uma séria perda de peso, diminuição da produçāo de leite e, mesmo, morte de animais. Fêmeas grávidas ingerindo metacercárias podem ter seus fetos infectados.
No homem, por nāo ser o hospedeiro normal do parasito, o número de fomas presentes costuma não ser elevado. Ainda assim podemos constatar alterações orgânicas provocadas pelo helminto. Essas lesões são de dois tipos:
- Lesões provocadas pela migração de formas imaturas no parênquima hepático;
- Lesões ocasionadas pelo verme adulto nas vias biliares. A seguir, descreveremos esses dois tipos ou fases.
Formas Imaturas
A migração do verme jovem dentro do parênquima parece que ocorre com a ajuda de ação enzimática. Assim, a liquefação dos tecidos hepáticos pela ação da enzima produzida pelo verme favorece não só a migração do verme, como a alimentação do mesmo, que é constituída de células hepaticas e sangue. A medida quea forma imatura migra, vai deixando atrás de si um “rastro” de parênquima destruido, que
é substituído por tecido conjuntivo fibroso. Essa alteraçao, sendo provocada por vários parasitos, lesa também os vasos sangüineos intra-hepáticos, causando necrose parcial ou to tal de lóbulos hepáticos. E importante dizer que as formas jovens em geral alcançam o figado sete dias após a ingestão das metacercárias, quando iniciam, precocemente, o processo patológico que podera demorar algum tempo (semanas ou meses) para se manifestar.
Formas Adultas
A presença dos parasitos adultos dentro dos ductos biliares, em movimentação constante e possuindo espinhos na cutícula, provocam ulcerações e irritações do endotélio dos ductos, levando a uma hiperplasia epitelial. Em seguida, há reação cicatricial, com concreções na luz dos ductos, enrijecimento das paredes devido a fibrose e posterior deposição de sais de cálcio. Essas alterações levam a uma di-
minuição do fluxo biliar, provocando cirrose e insuficiência hepática.
DIAGNÓSTICO
Clínico
E dificil de ser feito.
Laboratorial
Pode ser feita a pesquisa de ovos nas fezes ou na bile (tubagem). Entretanto, como a produção de ovos no homem é pequena, pode haver resultados negativos, mesmo com a presença de parasito. O diagnóstico sorológico oferece maior segurança, apesar de não possuir sensibilidade muito ele-
vada e poder cruzar com esquistossomose e hidatidose. Os métodos sorológicos mais indicados são: intradermorreação, imunofluorescência, reação de fixação do complemento e ELISA.
EPIDEMIOLOGIA
A fasciolose é uma zoonose na qual a fonte de infecção para o homem são as formas larvárias provenientes de caramujos, infectados principalmente por miracidios provenientes de ovos expelidos juntos com fezes de ovinose bovinos. Em Curitiba, Paraná, em área endêmica de fasciolose, de 119 caprinos examinados, 59 (42,8%) apresentavam-se positivos, eliminando ovos viáveis nas fezes. Assim sendo, os casos humanos de F. hepatica acompanham a distribuição da doença animal. Os próprios ovinos e bovinos são as principais fontes de infecção. No Sul do Brasil, o ratão de banhado e a lebre também podem albergar o parasito e disseminá-lo na natureza. Na epidemiologia da F. hepatica, além dos animais citados, cavalos, búfalos, porcos, cães e cervídeos podem funcionar como reservatórios do helminto, mas dois fatores importantes devem ser considerados:
- A movimentação dos animais entre pastos úmidos nas baixadas (época da seca) e pastos secos, nas encostas (época das chuvas) perpetua a doença entre os animais e infecta os novos que pela primeira vez se alimentam nas baixadas, onde existe o Lymnaea;
- O comércio de bovinos em caminhões, do Sul para o Norte, tem disseminado a doença não só através
dos animais, mas também pelos próprios caminhões cheios de fezes e lavados próximos de brejos ou córregos.
Uma F. hepatica, no estádio adulto, em condições normais é capaz de ovipor até 20.000 ovos por dia. Dessa forma, havendo condições propícias de temperatura (25-30°C) áreas alagadiças ou açudes com vegetação para desenvolvimento do caramujo e presença de animais parasitados, o Ciclo se fecha com grande facilidade. “O Lymnaea é um molusco pulmonado, de água doce, que tem como biótopos preferidos as coleções de águas superficiais situadas nas margens de lagoas, represas, nos brejos e pastagens alagadiças, onde os caramujos se alimentam de microalgas que cobrem o substrato” (Freitas, 1977). Os Lymnaea são hermafroditas e possuem um elevado potencial biótico, chegando apenas
um exemplar, ao fim da segunda geração, a dar até 100.000 indivíduos. Esses caramujos também são resistentes å seca, quando entram em estivação.
Resumindo, podemos dizer que os fatores mais importantes na epidemiologia da fasciolose humana são:
- criação extensiva de ovinos e bovinos em pastos e áreas úmidas e alagadiças;
- longevidade dos ovos nos pastos durante os meses frios;
- presença de Lymnaea nesses pastos;
- longevidade da metacercária (até um ano) na vegetação aquática;
- presença do parasito nos animais;
- presença de roedores e outros reservatórios nessas regioes, disseminando o parasito pelas áreas alagadiças, ainda indenes de F. hepatica;
- plantação de agrião em regiões parasitadas;
- hábito de pessoas comerem agrião ou beberem água proveniente de córregos ou minas em regiðes onde o parasito é encontrado em animais domésticos ou silvestres.
No foco de Curitiba (bairro Uberaba) foi constatado que a infecção provinha de uma fazenda próxima daquele bairro e onde se criavam bovinos que, pelo exame de fezes e post mortem, acusaram o parasitismo pela F. hepatica. Nesta área passam dois córregos Belém e Iguaçu – que na época das cheias dispersam os caramujos (Lymnaea) infectados; pela correnteza esses caramujos alcançam as folhas de agrião (Nasturdium officinale) ali existentes, liberando cercárias as quais se encistavam. Os casos humanos detectados eram moradores do bairro e que tinham o hábito de comer do agrião ali encontrado.
PROFILAXIA
A profilaxia da fasciolose humana depende primariamente do controle dessa helmintose entre os animais domésticos. Para atingir tal objetivo, as medidas fundamentais são:
Evitar Disseminação
A adoção de uma política séria e eficiente evitando a disseminação dessa parasitose é um fator importante, pois não só irá reduzir o atual índice da doença entre os animais, como evitará a formação de novos focos em outros Estados (a Amazônia, via Tocantinse Araguaia e o Nordeste, via São Francisco), onde o homem também poderá ser facilmente contaminado.
Destruição dos Caramujos
Os métodos mais indicados são:
- uso de moluscocidas, tais como sulfato de cobre, Frescon ou Bayluscide;
- drenagem de pastagens úmidas ou alagadiças;
- flutuação ou variação periódica e controlada do nível da água de açudes e represas;
- criação do molusco Solicitoides sp que, sendo um predador de formas jovens do Lymnaea, poderá ser um auxiliar valioso como controlador biológico do hospedeiro intermediário. O uso de solução aquosa do látex da “coroa-de-cristo” (Euphorbia splendens), na proporcão de 12mg/l foi testado em valas de irrigação, matando 95% dos caramujos. Esses dados preliminares (1999) dão uma boa indicação do emprego do látex dessa planta no controle do Lymnaea, sem matar peixes e anfibios.
Tratamento em Massa dos Animais
Os medicamentos de escolha são: Rafoxanide, Clorzulon+ Ivermectina e Albendazole, com resultados razoáveis; o Triclabendazole éo que apresenta os melhores resultados.
Isolamento de Pastos Umidos
Devem ser isolados por meio de cercas, para impedir a entrada de animais nos mesmos.
Vacinação dos Animais
Está em fase adiantada de pesquisas o desenvolvimento de uma vacina. Testes feitos em camundongos e ovelhas com o antígeno Sm14r (que é uma proteína que transporta ácidos graxos) têm produzido elevadas taxas de proteção (essa mesma proteína está sendo estudada na vacina contra o S. mansoni, com resultados menos eficientes, mas animadores).
Proteção do Homem
Nas áreas sujeitas, recomenda-se:
- não beber água proveniente de alagadiços ou córregos, e sim filtrada ou de cisterna bem construída;
- não plantar agrião em área que possa ser contaminada por fezes de ruminantes (como esterco, ou acidentalmente);
- não consumir agrião proveniente de zonas em que essa helmintose animal tiver prevalência alta.
TRATAMENTO
No homem, a terapêutica deve ser feita com cuidado, em vista de certa toxidez das drogas e possíveis complicações. Os medicamentos em uso atualmente são: Bithionolna dosagem de 50mg/kg/dia, durante 10 dias (recomenda-se fracionar a dose diária em três vezes, tomando-se em dias alternados); Deidroemetina uso oral (drágeas com 10mg) e injetável parenteral (30 e 60mg), na dose diária de 1mg/kg durante 10 dias.
O Albenzadole, na dose de 1Omg/kg tem sido empregado com sucesso, tendo-se que considerar, entretanto, alguns efeitos colaterais graves, ainda em estudo.










