Especialistas tentam identificar como esses minúsculos fragmentos de plástico, encontrandos atualmente no mundo inteiro, podem afetar a saúde humana.
Com informações de Science Alert.

Nature Medicine , 2025)
Pequenos fragmentos de plástico chamados microplásticos foram detectados se acumulando em cérebros humanos, mas ainda não há evidências suficientes para dizer se isso está nos causando danos, disseram especialistas.
Esses pedaços de plástico, quase invisíveis, foram encontrados em todos os lugares, do topo das montanhas ao fundo dos oceanos, no ar que respiramos e nos alimentos que comemos. Também foram descobertos espalhados por todo o corpo humano, dentro dos pulmões, corações, placentas e até mesmo atravessando a barreira hematoencefálica.
A crescente ubiquidade dos microplásticos se tornou uma questão fundamental nos esforços para elaborar o primeiro tratado mundial sobre poluição plástica, com a última rodada de negociações da ONU sendo realizada em agosto.
Os efeitos que os microplásticos e até mesmo os nanoplásticos menores têm na saúde humana ainda não são totalmente compreendidos, mas os pesquisadores têm trabalhado para descobrir mais neste campo relativamente novo.
O estudo mais proeminente que analisou microplásticos em cérebros foi publicado na revista Nature Medicine em fevereiro.
Os cientistas testaram tecido cerebral de 28 pessoas que morreram em 2016 e 24 que morreram no ano passado no estado americano do Novo México, descobrindo que a quantidade de microplásticos nas amostras aumentou ao longo do tempo.
O estudo ganhou as manchetes do mundo todo quando o pesquisador principal, o toxicologista norte-americano Matthew Campen, disse à mídia que eles detectaram o equivalente a uma colher de plástico de microplásticos nos cérebros.
Campen também disse à Nature que estima que os pesquisadores poderiam isolar cerca de 10 gramas de plástico de um cérebro humano doado — comparando essa quantidade a um giz de cera não utilizado.
Especulação ‘muito além da evidência’
Mas outros pesquisadores desde então têm pedido cautela sobre o pequeno estudo.
“Embora esta seja uma descoberta interessante, ela deve ser interpretada com cautela, aguardando verificação independente”, disse o toxicologista Theodore Henry, da Universidade Heriot-Watt, na Escócia, à AFP.
“Atualmente, as especulações sobre os potenciais efeitos das partículas plásticas na saúde vão muito além das evidências”, acrescentou.
Oliver Jones, professor de química na Universidade RMIT da Austrália, disse à AFP que “não há dados suficientes para tirar conclusões definitivas sobre a ocorrência de microplásticos no Novo México, muito menos no mundo todo”.
Ele também achou “bastante improvável” que os cérebros pudessem conter mais microplásticos do que os encontrados no esgoto bruto — como os pesquisadores haviam estimado.
Jones destacou que as pessoas no estudo estavam perfeitamente saudáveis antes de morrerem e que os pesquisadores reconheceram que não havia dados suficientes para mostrar que os microplásticos causaram danos.
“Se (e é um grande “se” na minha opinião) houver microplásticos em nossos cérebros, ainda não há evidências de danos”, acrescentou Jones.
O estudo também continha imagens duplicadas, informou o site de notícias de neurociência The Transmitter, embora especialistas tenham dito que isso não afetou suas principais descobertas.
‘Não posso esperar pelos dados completos’
A maior parte das pesquisas sobre os efeitos dos microplásticos na saúde tem sido observacional, o que significa que não é possível estabelecer causa e efeito.
Um estudo desse tipo, publicado no New England Journal of Medicine no ano passado, descobriu que o acúmulo de microplásticos nos vasos sanguíneos estava associado a um risco maior de ataque cardíaco, derrame e morte em pacientes com uma doença que obstrui as artérias.
Também foram realizados experimentos em ratos, incluindo um estudo publicado na Science Advances em janeiro, que detectou microplásticos em seus cérebros.
Os pesquisadores chineses disseram que os microplásticos podem causar coágulos sanguíneos raros nos cérebros de camundongos ao obstruir as células – ao mesmo tempo em que enfatizaram que os pequenos mamíferos são muito diferentes dos humanos.
Uma revisão da Organização Mundial da Saúde em 2022 concluiu que “as evidências são insuficientes para determinar os riscos à saúde humana” dos microplásticos.
No entanto, muitos especialistas em saúde citaram o princípio da precaução, dizendo que a ameaça potencial que os microplásticos podem representar exige ação.
Um relatório sobre os riscos à saúde dos microplásticos, publicado antes das negociações do tratado, pelo Instituto de Saúde Global de Barcelona, afirmou que “as decisões políticas não podem esperar por dados completos”.
“Ao agir agora para limitar a exposição, melhorar as metodologias de avaliação de risco e priorizar as populações vulneráveis, podemos abordar esse problema urgente antes que ele se transforme em uma crise de saúde pública mais ampla”, acrescentou.
A quantidade de plástico produzida no mundo dobrou desde 2000 e espera-se que triplique em relação às taxas atuais até 2060.










